Aos que tem curiosidade de como é ser cirurgiado, eu vou contar a minha emocionate história, sem poupar os mais trágicos e sórdidos detalhes. Estão prontos?
Tudo começou numa semana de carnaval, há uns... 4 anos atrás! Comecei a sentir uma dor na parte inferior direita do abdome. Começou com uma dor leve, que foi aumentando gradualmente com a passar dos dias. Doía quando apertava aquela região e doía quando não apertava. Uma dor singular e familiar. Literalmente. Meu irmão já foi cirurgiado. Apendicite. Até hoje tem uma cicatriz na "parte inferior direita do abdome." Comecei a ficar atemorizada, não queria ter que fazer uma cirurgia e, por isso, fui teimosa e resistente à idéia de ir para o hospital, embora minha mãe insistisse muito para isso.
Além da maldita dor, comecei a passar mal... Até chegar a ponto de vomitar verde. E aí já não podia mais fugir. Minha mãe me pegou pelo braço e me levou até o hospital de Parnamirim. Chegando lá, fui atendida por uma médica que me mandou fazer alguns exames de urgência e que analisou a região "afetada". Depois disso, me mandou para uma enfermaria tomar um pouco de soro e aguardar.
O melhor da enfermaria é que pra lá não levam comida. E para uma pessoa que nem gosta de comer, like me, imagine o que foi sofrido "aguardar" naquele lugar. E o melhor é que eu fiquei logo abaixo de um ar condicionado gigante, e pra quem me conhece hoje, se quiser me ver 4 anos antes é só me imaginar 4 quilos mais magra! Imaginou? É, eu sei que é dificil imaginar isso, mas continuando... Agora imagine o quanto é difícil para uma pessoa desprovida de tecido adiposo isolante térmico suportar o frio. Principalmente quando ela está com febre!
Esperei até a tarde até que a má notícia, enfim, chegou. O cirurgião veio falar comigo e com minha mãe. Fez o velho teste do apêndice lascado. Aquele, de apertar onde dói e soltar de vez. Se doer mais quando ele tirar a mão é porque é apendicite. E doeu mais quando ele soltou.
Quando minha mãe veio me dar a triste notícia começei a chorar... Não acreditava muito na medicina naqueles tempos. E tinha medo de não sei o quê. É uma sensação estranha... vem aquele nó na garganta e você não consegue mais dizer nada, apenas chorar. Minha mãe me abraçou e disse para eu não me preocupar.
Passados os momentos do primeiro choque, me recompuz. Ao final da tarde uma enfermeira nos acompanhou em uma ambulância até o hospital Walfredo Gurgel, em Natal. Mas não íamos sozinhas... Foi um paciente sofrendo ataques epilépticos em uma maca bem ao nosso lado durante todo o caminho. E acredite, a viajem foi bem mais confortável para a enfermeira e para o epilético do que para nós. A enfermeira ia com cinto de segurança, o epilético ia deitado na maca, mas eu e minha mãe estávamos sentadas num banquinho minúsculo, sentadas lateralmente e com aquela velocidade básica de ambulância, tentado nos segurar para não cairmos.
Chegando no Walfredo, a enfermeira nos orientou e foi fazer seu plantão. E nós ficamos aguardando um médico que pudesse fazer uma ultrassonografia. A má notícia foi que ele tinha acabado de sair e que só chegaria outro às 8 da noite. Eram mais ou menos 6 da tarde ainda. E comecei desde então a beber água, porque ultrassonografia só se faz com bexiga cheia.
Durante o tempo de espera a gente resolveu dar um rolé pelo hospital... uhauhauha ...e que rolé!Vi todas as moléstias daquele hospital, desde o salão de espera até o necrotério. Sim, porque a sala de ultra era ao lado do necrotério... Então vi defuntos passando de lá pra cá e daqui pra lá o tempo todo. E o mais interessante foi que não me assustei. Estava como dor, febre e a bexiga cheia demais para me preocupar com os mortos...
Enfim o médico chega! \o/ Fiz a ultra, aguardei o resultado e foi confirmado que eu teria mesmo que fazer a cirurgia, e com urgência, se não quisesse morrer.
Ao final do exame fomos falar com a assistente social, pedindo uma ambulância pra nos levar de volta pro hospital de Parnamirim. Não conseguimos. Minha mãe comprou um pão com queijo e uma garrafa d'água de não sei onde e me deu para comer. Afinal, não tinha comido quase nada naquele dia. Só água e soro. Pegamos um táxi que nos deixou lá no outro hospital.
Fomos reconduzidas a mesma enfermaria, deitei na mesma cama e tive de esperar até a manhã seguinte para ser cirurgiada. E essa noite de véspera foi longa... Debaixo do mesmo ar condicionado, sensação térmica de -2° C (o que não é exagero, para quem estava com febre). Fui submetida a uma dieta zero. E quando eu digo zero, é zero mesmo!
Cedinho, de manhã, vieram me pegar. Acho que essa foi a hora mais divertida, quando me colocaram naquela maca de rodinha e sairam me carregando pelo hospital... Adorava quando tinha que fazer curvas...
uahuhauhahahua
Me colocaram numa sala de cirurgia (ai, que emoção) e o anestesista já estava lá. Bom homem aquele... Ficou conversando comigo, perguntando como era meu nome, onde eu estudava, disse que eu precisava me acalmar, pois meus batimentos estavam um pouquinho acima do normal. Só lembro de ter abanado a cabeça em sinal de afirmação e depois disso não me lembro mais de nada. Apaguei! Pra quem tem curiosidade em saber como é uma sala de cirurgia só lembro que tinha uns aparelhos de monitoramento ao meu lado direito, umas bandejas, uma tábua ao embaixo de mim que depois eu descobri que serviria para prender meus braços. E uma luz! Uma grande luz que mais parecia uma nave espacial, bem acima de mim!!! uhauhahaha Parecia que ela ia me abduzir. kkkk...
Quando abri meus olhos novamente havia uma enfermeira na sala. Eu acordei perguntando de que horas ia começar a cirurgia. Ela disse que eu já havia sido cirurgiada. Depois disso caí no sono de novo. Acordei novamente e fiz a mesma pergunta. Ela deu a mesma resposta e acrescentou: " já, já vão lhe levar para o quarto. Depois disso apaguei de novo.
Um par de enfermeiros, sendo um homem e uma mulher, me levaram até a minha enfermaria. O pós cirurgia foi o momento mais crítico. Uma das horas mais difíceis foi a de passar da maca para a cama. isso é feito da seguinte maneira: os enfermeiros lhe enrolam em um lençol, um pega em uma ponta e outro pega na ponta oposta. Eles contam uma, duas meia e já, lhe suspendem e lhe carregam para a cama que está exatamente ao lado. A distância é muito peguena de uma para outra. mas para quem havia há poucos minutos levado um corte de bisturí e removido o apêndice parecia que tavam lhe levando para a China. E montada num lombo de um jumento.
Minutos depois lembro de ter vomitado verde! Disseram que era normal, mas a dor de comprimir o abdome para expelir o vômito é que não era "normal". Era de outro mundo!!! Me deixaram de novo na dieta zero, ó que beleza!
À noite já estava cansada da dieta zero. Queria comeeeer.. depois de muitos apelos a cozinheira (por sinal uma senhorinha muito simpática que fez todos os meus gostos) me trouxe um copinho de sopa liquidificada. Eu tinha fome, mas não consegui tomar nem metade do copo.
Os dias que se seguiram foram mais traquilos. Para mim. Porque para minha mãe que passou alguns dias e noites naquele hospital sentada em uma cadeira de plástico branca é que não foi nada fácil.
Ao meu lado estava uma senhorinha que já devia ter mais de 70 anos... Ela tinha feito uma cirurgia de vesicula, mas sua cicatriz vinha desde o umbigo até perto do coração por os outros órgão haviam sido afetados também. Não me lembra quantos pontos ela tinha levado, só que eram muitos. Do outro lado estiveram duas mulheres. As duas tinham feito cirurgia de apendicite e foram para casa antes de mim. Me angustiava ver as pessoas indo para casa e eu ficando lá...
Com o tempo, me acostumei a vida no hospital. Passei uma semana lá. De noite os que podiam andar (como eu) se reuníam na enfermaria ao lado para assistir a novela(rsrsrs). Era a unica TV que tinha por aquele corredor. Pelas manhãs eu ia para a ala das crianças ver desenhos. huahauhah. A única coisa que não gostava muito era da comida... Parecia que eles tinham uma granja e uma platação de acerolas nos fundos do hospital uhauhauhaha Todos os dias tinha suco de acerola e a "mistura" era sempre frango. Mas a dieta era super balenceada e os alimentos eram de qualidade. Só mais um pouquinho de sal e ficava de laber o beiços!!! rsrsrs E não posso reclamar não, porque todos os dias, depois do almoço, ia uma porçãozinha de doce. E de tarde tinha água de côco. Parabéns ao prefeito Agnelo por isso!!!
Todos, sem exceção, me trataram super bem. Desde o faxineiro até o cirurgião. Agradeço a Deus por ter tido a graça de estar num hospital bom!
Uma semana depois fui para casa, inda tava andando meio torto e sentia um pouco de dor, mas só de estar em casa já me sentia feliz. Aos poucos fui me recuperando e por sorte, naquele ano estava entrando no Cefet. E ele estava de greve até então, portanto, não perdi aulas.
Recebi a visita de amigos e de familiares ainda quando estava internada. Depois disso, a coisa mais emocionante que aconteceram foram a retirada dos pontos, coisa que não doeu. E a retirada do dreno, coisa que foi sinistra. O dreno, por fora, parece um dedinho de luva de látex, mas quando se vai puxando ele vai crescendo, crescendo... e você não entende como pôde caber algo daquele tamanho na sua barriga. A médica vai puxando e dizendo respire... e você tenta respirar. Mas você não consegue. Você só quer que aquilo acabe logo.
A história é bárbara. Mas nada acontece por acaso. Porque foi naquela semana que Deus foi me mostrando os planos que ele tinha preparado para mim. Depois daquele dia, decidi que queria ser médica! Foi aí que começou a descoberta do meu dom.
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