Bom... como continuação do post Cirurgia, a descoberta do dom, resolvi escrever sobre como, quando e onde, eu resolvi definitivamente ser médica. É uma longa e complicada história. Não surgiu assim de repente, como em um piscar de olhos. Foi mais como uma longa edificação, em que cada tijolinho ia sendo colocado aos poucos, dia-a-dia, até que a construção se concretizou e firmou-se. Houve praticipação de importantes pessoas, e fatos marcantes, mas houve também, fatos aparentemente insignificantes que só fizeram sentido algum tempo depois.
Após a cirurgia, a descoberta que queria ser médica não foi imediata. Ainda demorei bom tempo até descobrir e aceitar aquilo. Há um bom tempo atrás (creio que estava na sexta série), achei um pafleto fazendo propaganda de uma escola especializada em fisioterapia em Sergipe. Naquela época ainda não tinha decidido que profissão seguir, mas achei aquela uma área muito interessante. Anos depois, recebi um daqueles livrinhos de formatura. Era da minha prima, ela tinha se formado em fisioterapia, achei tão fascinante aquele livrinho, pois trazia todas as informações sobre o curso, e o legal era que a escola que ela se formou era a mesma do panfleto de anos atrás... E desde aquele dia resolvi que queria ser fisioterapeuta.
Mas, o tempo se passou e "fisio" não fazia mais o menor sentido para mim... Eu sentia que queria algo mais ... Já estava no ensino médio àquela altura e em um belo dia, quando estava no ônibus com uma amiga minha resolvi que deveria fazer dermatologia, pois era muito mais parecida comigo. Tudo ia bem, até que descobri que não existia graduação para "dermato", mas apenas especialização. Para seguir carreira em dermatologia era preciso, primeiro, cursar medicina.
À princípio fiquei aterrorizada. Jamais havia pensado em ser médica de verdade e, além de tudo, o vestibular para medicina é o mais concorrido desde a origem do universo e, cá entre nós, eu não sou lá uma excelente aluna. Mas a vontade de ser dermatologista era tão grande que resolvi encarar o bicho papão de frente.
Pouco tempo depois, descobri que uma das pessoas que mais amava estava com um câncer de grau 3, numa escala de 1 a 5. Foram tempos difíceis, mas ela conseguiu se recuperar e durante esse período procurei acompanhá-la o quanto pude. Inclusive, após sua cirurgia de removeção da mama, eu era a encarregada de limpar o dreno todos os dias, tarefa que prefiro não descrevê-la para não dar náuseas à quem lê este texto. Infelizmente, após 3 anos se tratando, o câncer resolveu voltar. E desta vez, veio da forma mais cruel e devastadora possível. Era ano de vestibular e tive que parar um pouco meus estudos para cuidar dela. E me doía muito vê-la sofrendo daquele jeito. Me dava vontade de sair correndo de lá, mas tive de ficar, apoiá-la, controlar a medicação, alimentá-la, entre outras coisas... De repente, em uma tarde de uma sexta-feira, tive de ir para o hospital com ela, sem saber que esta seria a última vez... Não dormi um só instante nessa noite e como ela foi longa... Deu pra ter idéia de como funcionava o hospital e vi coisas deversas, desde simples procedimentos médicos até mortes. Quando o dia amanheceu, recebemos alta, e quando chegamos em casa, ela faleceu.
Lembro do que ela me disse quando a contei sobre minha decisão de ser médica: que Deus te abençoe e que você seja uma boa médica e que não desista desse sonho por mais difícil que seja de realizá-lo.
Desde esse dia cresceu em mim a idéia de que estava no caminho certo. Deus tinha me feito perceber quais eram os seus planos para mim e vou lutar para conseguir isso e Ele estára ao meu lado, tenho fé! Quanto à idéia de ser dermatologista, o tempo é quem vai dizer, ainda há muitas coisas que meu coração não conhece. Só rezo para que seja feita a tua vontade, Pai, não a minha.

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